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Fábulas & Parábolas & Nomes

Palestina

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Havia um menino e havia um soldado. Esta é a história: “havia um menino e um soldado”. O menino segurava um livro. E o soldado? Nada, suas mãos estavam vazias. E depois? O menino atirou o livro com força acertando o soldado que, em seguida, caiu morto.

O escritor

Para M.-A.

 

Antes de se estabelecer o equilíbrio, o mundo real e o mundo ideal não se olhavam face a face. (O Zohar)

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Débil, estúpido, soberbo, demoníaco, louco, estranho, doente, sem respeito ao sagrado e as leis; palavras sinônimas ou de similitude clara que definem com a precisão de um cirurgião meu caracter. Ó, como não adorá-las e admirar-se diante delas sentindo-se um deus, um deus cuja índole o eleva acima dos mortais? Bem que eu deveria enaltecer-me ante a tal nomeação adquirida por atos reprováveis – louváveis? Não sei –, no entanto, sinto-me um símio no meio de homens, tentando em vão, como eles, manter-se em pé.  E ainda que busque desviar-me do meu caracter, a natureza impeli-me a segui-lo. Sou então, por isso, um mau caracter; inevitavelmente um mau caracter.  Parafraseando o apóstolo, vejo que vive nos meus membros uma outra lei.  Não me arrependo de sê-lo assim, mas admitindo a corrupção de meu espírito, decidi criar um ser melhor que eu, alguém cujas ações pudessem evitar as minhas. Comparei-o ao melhor dos seres possíveis imaginados por Deus, e o fiz.

No começo… Antes do começo, assim que o imaginei, pensei no que ele faria de bom para mim, ainda que eu não saiba conceituar o bom. Determinei o seu propósito e as condições de existência que permitiriam sua durabilidade como ficção. Pensei tal como um sábio a liberdade desta ficção e os limites a ela impostos por sua natureza irreal, e o que nela haveria de maravilhoso e de verossimilhante, e o que possibilitaria a ela romper com as duas como também o que por meio de ambas poderia desenvolver. Pensei, portanto, nela como individuo. Procurei sua alma nos símbolos, na geometria dos símbolos, nas palavras, nas frases, no texto. Procurei o seu vazio. E a cada imagem criada ela surgia mais radiante e perfeita. A mim ela pareceu boa. Certamente a ficção era melhor que o real. Era lógico acreditar que ela permitiria a mim, evoluir – noutras palavras, escapar a minha vil condição. Considerei, contudo, se os limites da folha seriam para ela um impedimento físico para se desenvolver livremente ou se como um carrapato habituado à superfície, não saberia encontrar tais limites, julgando, logo, ser aquele espaço o seu mundo, e se, caso descobrisse, como reagiria. Mas isto era um equivoco de minha parte, jamais uma existência ficcional poderia romper os limites da folha e se tornar real, assim como jamais o real poderia converter-se à ficção. Ao menos…  Após muito pensar; criei a ficção de mim mesmo. Criei-a no momento em que escrevi seu nome em um lugar qualquer num tempo qualquer.

A ficção não era perfeita, todavia, por ela tudo podia ser melhor; antes de tomar qualquer decisão, fazia-a com que agisse antes de mim; escrevia a cena, o momento da ação, o que eu faria caso se… de um modo que na realidade não agiria, de  forma tal que, eu poderia ponderar meus caminhos e evitá-los. Acreditei com muita fé que sua existência me curaria. Mas a ficção não tem por finalidade curar o real, não pertence a ela como a um escultor modelar a realidade; sua função é outra, contaminar. Mesmo assim, depositar a fé nela não ia de encontro ao que eu mesmo lhe havia estabelecido.

Passei a mergulhar em seu símbolo, convenci-me de sua beleza, e cri no seu milagre. Antes de ir ao trabalho, antes de amar minha esposa, antes de pensar, antes de respirar, antes que o dia começasse, antes que o outro dia começasse, antes, antes, antes, antes mesmo de, a ficção era e por ela tudo mais era e sem ela nada havia de ser. E com ela meus dias se tornaram melhores. Por meio da ficção eu percebi ser possível evitar o mal. Meu casamento, que antes estava uma porcaria, alcançou o status de sublime, tudo porque a ficção havia me dito como seria se.  Ora, era verdadeiro que eu havia me convertido à ficção, contudo ela jamais se converteria a mim. Então, ainda que sua existência me permitisse ser um outro de mim mesmo, era impossível ela se tornar eu. Havia um limite intransponível. No entanto, ao olhar para minha vida, semanas após tê-la criado, era inevitável não pensar o quanto em tudo estava a sua essência. Quisera sê-la, mas tornar-me ela, como já disse, era impossível. Eu procurei convencer a ficção de se tornar real, eu busquei de todo modo arrancá-la daquelas folhas e outorgar-lhe a dádiva de estar em meu lugar; eu lhe fiz uma proposta irrecusável, a qual qualquer outra ficção aceitaria sem titubear, mas ela rejeitou.

A ficção rejeitou seu autor – e, ainda, que esta rejeição fosse a prova de sua liberdade continuei a acreditar que ela existia sob o meu querer; enganei-me; a verdade era que sua liberdade demonstrava incontestavelmente o quanto ela existia sem mim.  A ficção não dependia mais do seu autor. Depois disso, não houve dia melhor. Todas as escolhas se tornaram acidentais; a vida reduziu-se a um acidente, quando antes se podia chamá-la milagre. Era como estar diante do quadro O espelho de Magritte, por mais que olhe você não vê o rosto. Voltei a fumar cigarro, ouvir blackmetal e tomar banho com o corpo mergulhado em bolsas de gelo seco. Minha esposa mudou-se para a casa dos pais. Tive um companheiro matinal que chegava às 6hs: o jornal – mas, depois de conversarmos, eu era forçado a rasgá-lo e, queimar tudo o que ele havia dito na lareira. Quando à noite eu necessitava de uma companhia, pousava no pinheiro da rua ao lado, uma coruja branca e cantava-me uma nênia, ao som dela eu adormecia. Quem, no entanto, suportaria esta vida miserável? Quem, no mundo, admitiria a realidade sem manifestar asco? Eu tinha fome… fome da ficção. Pensei no rosto que não via… tornou-se necessário forçá-la a mostrar a face.

Não precisei de tempo para pensar em como, a resposta, sabia-a desde o principio. Coloquei uma página em branco em frente à página onde está o último parágrafo, e, aconteceu o que imaginei: a ficção olhou-se a si mesma no vazio da outra página. E eu, de fora, vi seu rosto. Ela percebeu que a havia descoberto e procurou se esconder, mas, era tarde, meu olhar a detivera.

Novamente a ficção me pertencia… me pertence, entretanto, até o momento em que cansado rasgue suas páginas ou até a hora em que ela declare minha morte.

Carta-resposta para Mariel Reis

Querido Mariel Reis,

 

Sua carta foi de grande importância para a construção de minha pequena obra O Olhar da Bissetriz. Este livro de contos é realizado em torno do tema do duplo e para cada narrativa tenho que realizar pesquisas em torno de física, matemática e magia, pois as considero partes de uma mesma linguagem. Por isto, o conto O olhar da Bissetriz, conto central da obra, tem seus defeitos de repetir certas fórmulas já utilizadas em outras obras como de Oscar Wilde e Jorge Luis Borges e mesmo O Horla de Guy de Maupassant. Mas, me perdoe meu amigo, era inevitável não esbarrar em tais fórmulas, porque o tema do espelho o exige. É claro que o conto O Olhar da Bissetriz se trata de uma ruptura com o principio de identidade, logo um conto antilógico, irracional, absurdo, fantástico. Contudo, sua observação das semelhanças com Dorian Gray, não são meras observações, e, sim, aceitáveis e elogiosas; mas, devo dizer a você que considero o tema do espelho e do duplo inevitável quanto a não repetir fórmulas já usadas e gastas na Literatura, sabe-se que mesmo Borges também admitia esta inevitabilidade.

Mariel, volto a te pedir perdão por usar destas fórmulas, quis eu superá-las, mas fui superado por elas. O Horla é como uma sombra a perseguir meus contos, e, por mais, que tente me livrar de tal sombra, ela sempre está ali a mostrar-se diante de meus olhos dizendo o quanto não consigo livrar-me dela. Não quero, jamais, ser negligente com meus contos, como não quero, jamais, ser dominado pelo crime da semelhança com outras obras; entretanto, como fugir as influências? Como uma obra não ser a transformação de outra? Como uma obra pode ser ela mesma e não outra? Até mesmo, meu caro, a Literatura sofre a duplicidade, até mesmo a ela o principio de identidade não se aplica, por isto, poética.

Bem, o O olhar da Bissetriz, é um conto que faz a releitura de um mito da magia, conta-se que um certo mago, dizem que Merlin, retirou do espelho sua própria imagem, contudo após retirá-la desapareceu. Dizem que Merlin, na verdade, não desapareceu, mas passou a habitar o espelho.  O conto é um desvio e uma pergunta: é possível retirar minha imagem do espelho? O que se sucederia? A resposta inexiste, pois nem tal possibilidade existe, mas a ficção, tão mágica, nos permite imaginar fatos irracionais que exploram estas possibilidades mágicas. Eis então o conto que como tal não responde a esta pergunta, mas aprofunda a indagação, e se quer, se prende a uma leitura literal do mito, mas desvia-se dele a partir da releitura de um verso bíblico escrito pelo místico cristão Paulo.

Aqui, meu amigo, breves considerações sobre minha narrativa, não quero aqui ser apologista da obra, ante a ti, sou um humilde ouvinte de tuas sábias palavras. Guarde que esta obra será dedicada a ti.

 

Com grande afeto,

 

Teu saudoso amigo, Anderson Fonseca.

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Carta de Mariel Reis sobre o conto O Olhar da Bissetriz

Meu Caro Irmão Anderson,

 

Embora não seja habitual minha manifestação acerca do que leio através de carta não posso furtar-me da utilização de meio tão arcaico para transmitir as impressões exatas que me sobrepujaram após a leitura de seu trabalho, acertadamente o conto “O Olhar da Bissetriz”. Este de uma execução atilada sob a perspectiva que você resolveu adotar para nortear sua criação do livro homônimo – isto se não encontrou outro nome para batizá-lo, enquanto repousava nesta outra plaga, embalado pelo ciciar dos coqueiros e da melíflua voz de mulher amada – retomo depois de minha divagação, a perspectiva do duplo. É certo que deve ter notado que me faço opinar semelhantemente a natureza formal do conto: uma epístola.

 

Este condicionamento já o posiciona modernamente entre os gêneros caros ao pós-modernismo que se valeu dessas formas para elevá-las em seus status à categoria de alta literatura. O pós-modernismo é um blefe, porque tal procedimento já pode ser detectado em obras de raríssimo lavor no século XIX em autores do romantismo alemão. Em nada essa minha observação empana o brilho do método sobre o qual se arquitetou para inserir o espírito narrativo em uma forma em que a verossimilhança não saísse prejudicada do embate. E o leitor conservasse aceso o pacto de ilusão tão caro à literatura de qualidade em produção por você e ligada à temática que não se descola de todo do período literário aludido. Tendo-o mesmo transpassado e transladado para outros países, apegada ao imaginário de um sósia, errante desgarrado e até aferrado à ciência com seus clones, migrados para os produtos de tevê como a novela de Glória Perez que contava com Murilo Benício no papel principal.

 

O empregado ilustrado Jacob, estupefato, interpela o Sr. Fulcanelli sobre o ocorrido com seu patrão, senão estranhando sua duplicação, já desconfiando que nesse desdobramento a verdade está na outra margem que seus sentidos atingem por reconhecer nesse outro alguém mais capacitado para essa existência ficcional do que o eu verdadeiro de seu amo, contudo, se nega a crer nisso objetivamente, opõe-se sua racionalidade ao fato que tem diante de si, quer mesmo precipitá-lo ao pesadelo pelo insólito que carrega e não o compreende, porque anseia pelo esclarecimento deste outro iminente cientista, talvez mesmo amigo do Dr. Elsius Bergier; anseia que o socorro não tarde para não cair aparvalhado sobre si mesmo e acomodando-se dar ao extraordinário uma feição natural para que seu juízo não reponte na direção da loucura

 

 Temo, entretanto, certa semelhança, que depois erradicada, com Dorian Gray no procedimento de desnaturação do protagonista em favor desse outro que emerge do espelho.  Em poucas linhas em que se alude o envelhecimento de um e o rejuvenescimento do outro. Nada que interfira no produto final auferido pela ficção engendrada, nada que desmereça o trabalho empreendido, mas eu me certificaria em manter distância nessa emulação, mesmo tão forte e tão sedutora.

 

Outro ponto importante que asseveraria na construção do volume é o seguinte: intercalar narrativas que tratem da personagem que sofre a bilocação corpórea ou daqueles que presenciam o suposto milagre para alternar os estados de consciência durante a leitura, porque podem soar por demais iguais enfileiradas todas as estórias que se ocupem de mesmo assunto, mesmo se tratadas originalmente como você tem se preocupado em fazer quando as enceta.

 

A monotonia pode ser um mal advindo dessa atitude se não for corrigida por uma artimanha ficcional que ligue as narrativas sem violentá-las com a convivência com que não lhes represente a própria natureza íntima do que tratam. Sinto-me estúpido dando-lhe conselhos que se não servirão de nada, afirmarão o que já lhe vai ao íntimo, despertado pelas inúmeras leituras do material que confecciona e como agudo primeiro leitor de si mesmo.

 

Escrevo às pressas, como sempre, para tentar honrar o compromisso de leitura e dar-lhe um parecer honesto – como sempre intento – do que li. Se verdade não fosse minha admiração pelo ficcionista e minha estima pelo amigo não locaria meu espírito, que não se sentiria confortável, sobre o que julgasse inútil ou desprovido do engenho necessário ao fazer artístico. Todavia, isso não nos acontece, porque em abundância se nos mostra a arte sua face de Proteu, incitando-nos a capturá-la com a nossa primitiva ferramenta – a linguagem. E, como aquele homem que procura adequar a visão ao ambiente escuro para perceber-lhe as nuanças; O Olhar da Bissetriz está repleto delas, o que já a coloca acima de muito do que se escreve por aí.

 

Perdão pelo que vai mal- escrito.

 

Abçs

Mariel Reis

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O sonho

Nas tardes de domingo, o Dr. Andrea Svevo visitava-me para conversarmos sobre física óptica – um dos assuntos preferidos do Dr. Svevo e o qual muito me interessava.

O Dr. Andrea Svevo, quando chegava, se dirigia à poltrona que fica à direita da estante de livros, a qual eu, sempre deixava reservado para ele, porque nela, segundo dizia, sentia-se confortável; eu me sentava numa cadeira com os olhos semicerrados e voltados para o teto; era raro eu e Svevo nos encararmos durante o debate, cada um acreditava que este momento merecia sagração à sua própria mente.

Houve um domingo, porém, que o Dr. Svevo não veio na hora habitual, estranhei, pois jamais se atrasou para nosso encontro, costumávamos nos encontrar às 14 horas. Às 18 ele chegou; batia na porta com força e gritava meu nome com ímpeto. Abri a porta e Svevo entrou brutamente, retirando os sapatos às pressas, procurando com o olhar sua poltrona, dizendo repetidamente que tinha algo a me contar. Respondi dizendo a ele para que sentássemos. Sentamo-nos e Andrea Svevo começou a dizer:

 – Dr. João Zveiter, o senhor como bem sabe, não sou um homem que se impressione por qualquer ideia, ainda que minhas cogitações em torno do misticismo lhe pareçam surrealistas, imagino que não pense a respeito de mim como um insano. Acredito, de boa fé, que apenas respeita minhas opiniões. Estou certo?

 – Sim – concordei.

 – O Sr. deve se lembrar de quando comparei o espelho ao sonho e disse-lhe da possibilidade mágica do sonho se comportar como espelho. Certa vez, você mesmo disse, repetindo as palavras de um poeta, que o espelho e o sonho são um mesmo e único ser nos olhos do homem. Baseado no que me disse, retruquei lhe dizendo o quanto acredito que o sonho possa nos revelar o futuro, e você concordara comigo. Mas lembro-me de você ter dito que também é possível que o sonho nos revele o futuro daquele mesmo sonho, ou nos mostre um outro sonho que ainda há de aparecer. Em suas palavras, era possível um sonho antever outro sonho dentro de si mesmo. – Svevo dizia fitando-me os olhos com a convicção de um luterano. – Pois bem, meu amigo, hoje tive a sensação de tais ideias. Hoje sei o que a certa hora da noite hei de ver quando meus olhos estiverem cerrados. O que vou lhe contar, deverá ser dito de uma forma que não possa esquecer, direi a você o que ainda não me aconteceu, e sei como será sem antes ter sonhado. Certamente, Dr. Zveiter, você irá me perguntar como posso saber o que não me aconteceu, se nem sequer mergulhei no vasto sonho para que este me revele o futuro. Sinceramente, não sei como explicar, somente lhe garanto, com fé, que sei o que há de me acontecer no sonho.

– E como o Sr. pode me garantir de ter antevisto o sonho sem antes sequer ter sonhado? Quer que eu aceite que sabe apenas porque você tem certeza do que diz, pela fé? Está por acaso debochando de mim?

– Não! – exclamou Svevo como uma criança questionada pelo pai tentando o convencer de que não mente. – Eu sei, é isto.

– Ora, hei de aceitar o que me diz, como hei de ouvir o que há de me contar, mas não porque existe lógica no que afirma, pois na verdade, sabemos ambos que não há nenhuma razão no que está dizendo. Poderia interná-lo num hospício, para que recupere, lá, sua sanidade. Mas acredito que ainda que eu fizesse isso, você continuaria a defender sua ideia. Não tenho outra escolha senão ouvi-lo. Diga-me então com suas palavras previamente escolhidas o que tem a contar. Diga-me o que viu.

– Não o que vi, Dr. João Zveiter, mas o que hei de ver.

– Diga logo. – retruquei.

Andrea Svevo, mudou a expressão do rosto, e, sem se voltar para mim, disse:

– Esta noite sonharei um sonho inevitável. Sonharei que diante de mim, nesta sala, estará um outro eu. Ele estará sentado onde estou. Saberei que ele é eu porque o sonho me dirá e não porque reconhecerei seu rosto (no sonho o rosto é uma sombra). Ele estará diante de mim em silêncio aguardando que eu fale, e eu mostrarei a ele minha angústia e meu desejo. Direi a ele que a alma que carrego comigo é maléfica e que dela quero me livrar. Ele então, complacente a meu sofrimento, estenderá sua mão. Assim que o toco, sinto uma parte de minha alma ir para com ele, e, mal ela se vai já me sinto diferente. Ali, naquele instante, percebo que a outra parte de minha alma agora a ele pertence. Ali, entendo que ele é o limbo e que ela ficará com ele para sempre. Ao despertar já não sou eu quem desperta, mas um outro, porque embora saiba que ainda sou, sou um eu com menos de mim. Não posso lamentar. Aceito que é real; eu estarei com o outro eu, e ele levará uma parte de mim consigo, ele é meu limbo, e o que é eu, ao estar com ele, não mais retornará.

– O Sr. usa de uma linguagem poética para descrever o indescritível. Acredita que o uso desta linguagem convencerá a mim de que o que dizes é verdade? Não obstante creia que a poesia seja a língua do infinito, não a considero suficiente para tornar lógico o que é irracional; é possível tornar aceitável o fantástico aos olhos de um sábio, porém, não significa que valha como verdade. E o que o convence de que a visão do futuro sonho seja real a ponto de perturbá-lo?

– Zveiter, já conversamos a respeito do sonho ser um espelho, se tal conceito for verdadeiro, nada impede de que a alma se fixe no sonho como a imagem no espelho; e, se este espelho for o inconsciente, é claro que a alma se fixará nele sem retornar.

– Ainda assim, não disse o que o perturba.

– Tenho razões para crer que após o sonho cometerei atos terríveis que me levarão a um fim igualmente terrível. A ausência de minha alma, certamente, me tornará em alguém incapaz de distinguir o bem do mal. Eu me vi matando Madelaine e você Zveiter. Eu matarei para santificar o mundo de um mal invisível, e ainda que esta razão seja insana, e também indesculpável, é a única razão que me há de vir sem que eu a questione. Creio imensamente que ao fazer, o farei sem arrependimento. Apesar, de agora, considerar um ato terrível o que farei; após o sonho me parecerá natural. Eu serei este outro que desperta. Portanto, esqueça o que você vê neste momento, apenas pense em quem hei de ser. Pense em mim, agora, como sendo aquele que surge depois do despertar.  Estou tomado por esta certeza, e isto, me conturba profundamente.

Andrea Svevo estava transformado. Eu o olhava, mas sabia que já não era ele quem estava diante de mim, como se o sonho desde o seu futuro já influenciasse o presente, como se aquele outro eu, já existisse, ali, diante de mim. A hipótese de que o sonho que sequer havia se realizado, já o tivesse tornado em outro, me seduziu a ponto de crer estar certo que Svevo não era mais o amigo que conheci. Todavia, seria ele realmente capaz de assassinar sua esposa e amigo? Seria possível que ele abandonasse parte de sua alma num ser extracorpóreo, cuja existência era improvável, e, sobretudo, existindo no interior dele mesmo tornando-o inverificável cientificamente, e ‘inda sim, real somente para ele? Fantasia ou realidade, me perguntava porque Svevo acreditava tanto neste sonho. Convenci-me de que Svevo não mais existia. Apiedei-me dele e a piedade levou-me a fazer o que era necessário.

Antes de Svevo dizer “A…”, com a agilidade de um jovem, saltei da cadeira encravando em sua garganta a caneta que estava em minha mão. Ele morreu, mas tive a sensação de que sou eu que havia morrido, ou talvez, uma parte de mim. Naquele momento, Svevo era meu outro eu, e eu o havia assassinado.  A cada gota de sangue que escorria de sua garganta crescia em mim a certeza de que tudo era um sonho, e agora, ao despertar, quem levantaria era um outro, enquanto eu passaria a eternidade no limbo. Como disse Svevo, aquele sonho… Era inevitável.

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